Sentir não é errado.

Sempre tem um dia, numa semana qualquer, num mês, num período do ano em que sinto saudades de você. Iria escrever que sentia a sua falta, mas tem momentos que acho que o “sentir a falta” não expresse tão bem um sentimento quanto o dizer “estou com saudades”. Isso não é algo tão comum, digo o sentir tanta saudade de você, afinal, a gente aprende a seguir em frente, aprende a lidar com esse sentimento tão bonito e ao mesmo tempo tão doloroso.

Lembro que, assim que esse sentimento começou, pensava a todo momento em como seria passar tanto tempo sem você. Comecei a pensar que dali pra frente você não estaria tão presente como de costume, você não ia ter a oportunidade de ver eu colocando um aparelho para consertar meus dentes (que por sinal estavam muito tortos) e me zoar por conta disso, você não estaria presente na minha formatura da 8ª série, não veria todo o meu desespero para entrar no ensino médio, não estaria por perto para me ver quase vestida de princesa no meu aniversário de 15 anos, você não estaria por perto para me abraçar e deixar eu chorar durante a minha primeira desilusão amorosa, nem estaria lá para dizer “eu vou matar esse garoto” como costumam dizer por aí, você não estaria lá para me zoar fazendo a piada mais tosca que fazem quando alguém faz 18 anos – cuidado, você já pode ser presa.

Mesmo você não sendo perfeito, gosto muito de acreditar que você estaria me ajudando a cuidar das nossas meninas, cuidar delas sozinha é um tanto complicado (ainda bem que temos o Espírito Santo, caso contrário não sei como estaríamos) e por meninas digo mamãe e Lettícia, que por sinal estão mais lindas a cada dia que passa. Mamãe já mudou mais de estilo de cabelo do que você poderia imaginar, já conquistou tanta coisa boa que tem momentos que nem ela acredita, ela dá tão duro para ver a gente feliz que por momentos esquece dela mesma, e temos que dar uma sacudida nela para ela pensar nela também. Acho até que não estava nos seus planos, mas ela nos trouxe para Europa, dá pra acreditar? Quem diria que ela iria tão longe, ela é demais!

Ah, a Lettícia... ela é o melhor presente que um dia eu recebi na vida, a cada dia que passa ela se torna mais minha amiga, e se fosse possível a colocaria num potinho e guardaria. Já faz uns 3 anos que, infelizmente, ela viveu mais tempo sem você do que com você e quando perguntamos algumas coisas sobre você ela já não se lembra mais, mas pode deixar, eu tento lembrar por nós duas e converso com ela sobre você, às vezes. Ela já está quase maior que eu, acredita? Se bem que suspeitávamos disso desde o início, também, a guria parecia tanto contigo que seria quase certo ela ficar com uma altura mais próxima a sua. E prometo que tento ao máximo protegê-la como a caçula deve ser protegida, e isso vai desde andar de mão dada com ela (quando ela está a fim) até protegê-la de pessoas más (um cara estranho ficou comendo ela com o olho, mas tirei ela do campo de visão dele e só não taquei meu tênis nele porque não ia gostar de ser presa por agressão).

Confesso que esses dias a saudade que estou sentindo de você está maior do que gostaria. Vi meu primo tocar violão para minha priminha e lembrei das incontáveis vezes que te vi tocar, e de todas as vezes em que falei “quando eu crescer vou poder cantar e tocar com você, né?”. Eu trouxe seu violão comigo, mas até hoje não aprendi 1/3 do que você sabia, mas só de saber que ainda o tenho já fico feliz, e bem, como não é tão prático andar por aí com um violão nas costas, ando com a sua palheta favorita pendurada num cordão, assim sinto que tenho uma partezinha sua comigo, não apenas no coração. Assisti um filme esses dias, e mais uma vez senti muita saudade de você, mas entendi que se sinto saudades de você é porque você me cativou, então isso é normal.


Eu cheguei até essa parte do texto e se torna óbvio que isso seria para você, papai, seria para alguém que se foi tão cedo e deixou tanto para ser resolvido. Sim, eu sei, seu tempo tinha chegado, seu momento tinha chegado, tinha chegado a sua hora de ir e você foi. Lamento muito por ter sido de uma forma tão trágica e que ficará ainda por muito tempo na minha memória, mas me consola saber que um dia te encontrarei. Enquanto esse dia não chega, não vejo mal em sentir saudades de você, papai, até porque sentir não é errado.

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